bonitas, bem-sucedidas e solteiras

Interessante ter ouvido de algumas pessoas que o texto Sex and the City, publicado aqui há algumas semanas, não tocou em certos pontos que não poderiam ter ficado de fora. Um amigo me disse ter sentido falta de uma análise mais detalhada do perfil de cada uma das personagens. Também houve a observação de que o livro de Candace Bushnell que deu origem à série não foi citado. Essas duas observações fazem todo sentido, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato desses comentários terem vindo de homens. Então, vamos lá.

Bem-vindos à “Sex and the City parte 2”.

Apesar das quatro personagens representarem tipos bem diferentes de mulheres, têm em comum o fato de serem bonitas, independentes, bem-sucedidas profissionalmente e estarem na casa dos 30 e poucos anos. Cada uma delas soube, com uma franqueza surpreendente, falar de temas que geraram identificação imediata com as mulheres. Talvez aí resida o motivo do sucesso da série: pouco importa se o cenário é Nova York e as compras são feitas na 5a Avenida, algumas questões não mudam independentemente de lugar, contracheque ou etnia.

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) é a que melhor representa o equilíbrio razão-emoção e não por coincidência é a grande confidente e conselheira das demais. É jornalista e escreve no jornal The New York Staruma coluna sobre sexo chamada “Sex and the City”. Carrie tem obsessão por sandálias Manolo Blahnik e é megaconsumista. Passou toda a série entre idas e vindas com Mr. Big (Chris Noth), sua outra obsessão e principal matéria-prima para suas colunas.

Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) é o tipo racional cujas observações nunca são feitas através de lentes românticas. Prática, quer se tornar sócia do escritório de advocacia no qual trabalha. Ao conseguir comprar seu apartamento (o que não é pouco, afinal, estamos em Manhattan), ela se indignou com o fato de que um homem solteiro de 30 e poucos anos que compra um apartamento é visto como alguém que “chegou lá”, enquanto uma mulher na mesma situação é vista como a solteirona solitária.

Charlotte York (Kristin Davis) faz um contraponto interessante na série. Enquanto as demais querem amor (ou sexo), mas nem sempre sonham com casamento, ela parece ter errado de século. Sua visão extremamente idealizada dos relacionamentos faz com que ela veja em cada homem um príncipe encantado em potencial. Ela se distrai com a carreira até o dia em que ganhar uma aliança da Tiffany. Típica Cinderela.

Samantha Jones (Kim Cattrall), é a mulher na qual não se vislumbra qualquer vestígio de romantismo. É liberal, tem pânico se um cara fala a palavra namoro e não entende porque as mulheres fazem tanto drama. “Ou as mulheres aprendem a fazer sexo como os homens ou vão bater a cabeça na parede tentando encontrar um relacionamento sério”, ela dispara já no primeiro episódio. Na 4a temporada da série, essa ultraliberalidade da personagem permitiu inclusive um relacionamento lésbico com Maria, artista plástica interpretada pela brasileira Sônia Braga.

Em termos de guarda-roupa, Carrie é moderna e louca por grifes (o estilo da personagem influenciou as mulheres no mundo todo); Miranda tem a sobriedade típica da executiva; Charlotte faz o estilo bonequinha de luxo (conservadora e clássica), enquanto Samantha é ousada e abusa de decotes, condizentes com seu perfil de “mulher predadora”.

O livro “Sex and the City” (Ed. Record, 2003) foi lançado nos EUA em 1996 a partir da coluna de mesmo nome que Candace Bushnell escrevia no jornalThe New Yorker Observer. São muitas as semelhanças entre Candace e Carrie: as profissões (jornalistas que escrevem colunas sobre sexo), as idades, os estilos e, se você prestar atenção, até as iniciais dos nomes das duas (CB). Apesar de a autora negar que a obra tenha um tom auto-biográfico, pouca gente duvida que Carrie seja o alter-ego de Candace.

Interessante dizer que há uma diferença notável entre o livro e a série. Como no primeiro as personagens são mais cínicas e mais céticas em relação à afetividade, dá pra perceber que as falas foram amenizadas para ficarem mais palatáveis ao público da TV.

Livros como “Sex and the City” e “O diário de Bridget Jones” (este último da inglesa Helen Fielding), ambos lançados em 1996, acabaram criando um novo estilo literário. Isso que muita gente vem chamando de “literatura pra mulher” nada mais é do que um filão que explora a capacidade das mulheres de rirem de si mesmas. São as conversas do shopping, dos bares e de horas ao telefone com as amigas transpostas para livros. E, na esteira do sucesso dessas duas obras, vieram outras como “Melancia” (Marian Keyes), “Os delírios de consumo de Becky Bloom” (Sophie Kinsella), entre inúmeras, pois praticamente a cada mês uma obra do gênero é lançada.

Segundo a revista Variety, o sucesso desse tipo de livro se deve à capacidade que têm de fazer um retrato cômico e fictício de caras e situações muito conhecidas para ficarem escondidas.

ps: Adoro a última fala de Carrie no último episódio, que dá uma dica sobre o que, afinal, as mulheres querem:

“Mais tarde, comecei a pensar sobre relacionamentos. Existem aqueles que a levam a um mundo novo e exótico. E aqueles que não são novidade. Aqueles que trazem um monte de perguntas. E aqueles que levam a um lugar inesperado. Aqueles que a levam para longe do lugar onde você começou. E aqueles que a trazem de volta. Mas a mais empolgante, desafiadora e significativa relação é aquela que você tem consigo mesma. Agora, se você encontrar alguém que ame o que você ama, então isso é maravilhoso” (CARRIE BRADSHAW)